Diversas organizações da sociedade civil, do campo científico e do setor florestal apresentaram ao Conselho Federal do Meio Ambiente (COFEMA) suas análises técnicas e posicionamento institucional a respeito da iniciativa do governo nacional de modificar a Lei Nacional 26.331 sobre Orçamento Mínimo para Proteção Ambiental de Florestas Nativas.
Em um relatório especial, refletimos a posição de sete organizações que apresentaram seus alertas à COFEMA: a Federação Argentina de Engenharia Florestal (FAIF) sobre a redução da proteção para prevenção de incêndios, a Rede Agroflorestal do Chaco Argentina, o Movimento Agroecológico da América Latina e do Caribe sobre o impacto que terá sobre os produtores rurais e as populações indígenas, a ONG Aves Argentinas, muito crítica do grave retrocesso jurídico que as modificações implicam, o Grupo Peronista Florestal (AFoPe) com um olhar abrangente sobre o território e o uso das florestas para o desenvolvimento local, a Faculdade de Ciências Florestais da UNSE e a Faculdade de Pós-Graduação em Ciências Florestais de Santiago del Estero, que mostram um alto nível de concordância sobre aspectos centrais do debate, além de fornecerem sugestões técnicas e específicas. Os documentos – que fazem parte de mais de 30 organizações apresentadas ao COFEMA, como a AFoA – concordam que a Lei Florestal foi um dos avanços institucionais mais importantes na política ambiental argentina desde a reforma constitucional de 1994. Neste contexto, sustentam que o desafio atual não é modificar sua arquitetura regulatória, mas fortalecer sua aplicação, melhorar o financiamento e consolidar a coordenação federal entre a Nação e as províncias. Para as organizações, proteger as florestas nativas não constitui uma posição setorial ou exclusivamente ambiental, mas uma condição estrutural para o desenvolvimento produtivo, a estabilidade territorial e a inserção internacional da Argentina. Coincidências: principais pontos em comum para rejeitar as modificações. A análise comparativa dos cinco documentos permite identificar um núcleo de coincidências que estrutura o debate.1. Risco de regressão ambientalAs organizações concordam que as modificações propostas implicam uma redução nos atuais padrões de proteção das florestas nativas, o que entraria em tensão com o princípio da regressão não ambiental previsto no marco legal argentino. Este princípio estabelece que as políticas públicas não devem reduzir os níveis de proteção ambiental já alcançados, mas sim sustentá-los ou ampliá-los.2. Expansão massiva de áreas potencialmente desmatáveis ??Um dos pontos mais questionados é a modificação que permitiria o desmatamento na categoria II (amarela) do planejamento territorial. Segundo os documentos apresentados, isso poderia ampliar a superfície suscetível a mudanças no uso da terra de aproximadamente 10 milhões de hectares para quase 42 milhões, o que implicaria que até 80% das florestas nativas do país estariam expostas a transformações produtivas.3. Enfraquecimento dos controles estatais Outro aspecto destacado por todas as organizações é a eliminação ou redução dos mecanismos anteriores de controle administrativo. Entre as modificações questionadas estão: • a eliminação de autorizações prévias para determinadas compensações • a delegação do controle técnico a profissionais privados a supressão do Cadastro Nacional de Infratores Segundo especialistas, essas alterações poderiam gerar conflitos de interesses e reduzir a capacidade de fiscalização do Estado.4. Impactos económicos e comerciaisAs organizações também concordam que o debate não é exclusivamente ambiental. A flexibilização do regime poderá afectar a posição internacional da Argentina face a mercados que exigem cadeias de produção livres de desflorestação, como a nova regulamentação europeia sobre mercadorias ligadas à mudança no uso da terra. Nesse contexto, alertam que um sinal regulatório que amplie a compensação poderá gerar riscos de competitividade para os setores exportadores.5. O problema não é a lei, mas a sua implementação. Um ponto reiterado nos documentos é que as principais fragilidades da política florestal não estão na concepção da lei, mas na sua execução. Entre os desafios mencionados estão: • financiamento insuficiente do Fundo Florestal Nacional • fraquezas no monitoramento e controle • limitações institucionais em algumas jurisdições Para as organizações, a prioridade deveria ser fortalecer a implementação e não reduzir os padrões regulatórios. As visões específicas de cada organização Embora compartilhem um diagnóstico geral dos riscos que alteram a Lei de Florestas Nativas da Argentina, cada organização apresentou ao Conselho Federal do Meio Ambiente (COFEMA) uma análise particular da sua área de especialização, que vai desde a engenharia florestal e biodiversidade até a agroecologia e políticas públicas ambientais. Da Federação Argentina de Engenharia Florestal (FAIF), que reúne profissionais do setor florestal do país, a proposta central visa preservar a estrutura técnica da lei em matéria de prevenção. A entidade sustenta que a regulamentação actual permitiu estabelecer regras claras para o ordenamento territorial das florestas nativas, um processo complexo que envolveu províncias, universidades, organizações científicas e actores sociais. Entre os principais pontos de preocupação mencionados pela federação estão: • a possibilidade de viabilizar o desmatamento em áreas classificadas como categoria II (amarela), o que modificaria o espírito do planejamento territorial; • a eliminação ou enfraquecimento das instâncias de avaliação e autorização administrativa prévia; estratégico, pois permite promover o manejo florestal sustentável, a restauração de florestas degradadas e o desenvolvimento das economias regionais vinculadas ao uso responsável dos recursos florestais. Os especialistas sublinham que o desafio actual não é modificar o regime jurídico, mas reforçar a sua implementação e financiamento, nomeadamente através do Fundo Nacional de Enriquecimento e Conservação das Florestas Nativas.











