A Comissão Técnica Florestal do Conselho Profissional de Engenharia Agronômica (CPIA) expôs publicamente sua posição em relação à crescente recorrência e gravidade dos incêndios rurais na Argentina, baseando em um documento a necessidade de priorizar estratégias integrais de prevenção no país. A Comissão Técnica Florestal da CPIA expressa, inicialmente no documento, “seu profundo pesar pelos graves danos causados ??pelos incêndios rurais que atualmente assolam a Patagônia Argentina”, particularmente em regiões como a Patagônia Norte, o Parque Nacional Los Alerces e outras áreas afetadas nas províncias de Chubut, Río Negro, Neuquén, La Pampa e Santa Cruz
Expressamos a nossa solidariedade a todas as comunidades afetadas por esta tragédia ambiental e humana. Como comissão profissional especializada em questões florestais e agronómicas, consideramos que é nosso dever contribuir para o debate público numa perspectiva técnica, responsável e de longo prazo, sublinharam. Infelizmente, do ponto de vista comunicacional e operacional, a recorrência destes eventos catastróficos tornou-se normal. Não se observam mudanças substanciais nas estratégias para enfrentá-los, apesar de os resultados terem sido repetidamente devastadores, salientaram. A dramática história recente de incêndios rurais na Argentina A temporada de 2020 foi uma das mais destrutivas já registradas, com mais de 1.150.000 hectares afetados em todo o país, incluindo vastas extensões no Delta do Paraná e em Córdoba. Soma-se a isso temporadas graves como 2016-2017, com mais de 2.000.000 hectares queimados nas regiões dos Pampas e nordeste da Patagônia, e 2021-2022, com aproximadamente 1.054.000 hectares queimados no total, com destaque para os incêndios em Corrientes que devastaram quase 934.000 hectares e causaram perdas econômicas e ecológicas significativas. Mais recentemente, a temporada 2024-2025 e a atual 2025-2026 continuaram esta tendência, com centenas de milhares de hectares consumidos pelo fogo - só em janeiro, mais de 140.000 hectares foram relatados pelo Serviço Nacional de Gestão de Incêndios (SNMF) que foram devastados, sendo os mais relevantes 73.000 na província de La Pampa e 55.000 na província de Chubut, detalhados pela Comissão Técnica. Estes acontecimentos não são episódios isolados, mas sim uma tendência persistente que o país não tem conseguido reverter, agravada por condições climáticas extremas como secas prolongadas e altas temperaturas, explicaram os profissionais. Da mesma forma, afirmaram que a Argentina registra sistematicamente números superiores a dez mil incêndios rurais por ano, o que mostra uma mudança estrutural no regime de incêndios e confirma que o problema não pode mais ser enfrentado apenas a partir da lógica da emergência reativa, mas como uma política permanente de segurança pública e ambiental. Reconhecemos e valorizamos os actuais esforços de combate por parte daqueles que actuam de forma honesta e eficaz para controlar e proteger vidas, comunidades e ecossistemas. No entanto, estabeleceu-se a ideia de que um orçamento maior para o combate é a principal solução para enfrentar o problema. A experiência mostra que não basta aumentar os recursos se uma estratégia focada quase exclusivamente no combate e na extinção permanecer inalterada. Sem uma mudança profunda no sentido de prevenir o início de incêndios, os resultados continuarão a ser os mesmos, perpetuando a destruição da biodiversidade, a degradação do solo e a exposição de comunidades vulneráveis, explicam. A prioridade para evitar incêndios é a prevenção. Neste contexto, a Comissão Técnica Florestal da CPIA está convencida de que o eixo central da política pública deve ser a prevenção ativa da ocorrência de incêndios, entendendo que a maioria deles tem origem humana, seja por negligência ou intencionalmente, como foi confirmado em muitos dos focos atuais na Patagônia. Nesse sentido, os profissionais propõem como prioridade nacional:1. Patrulhamento preventivo incremental, obrigatório e permanente. Deve ser estabelecido um sistema de patrulhamento territorial coordenado e obrigatório durante toda a temporada de alto risco, com a participação conjunta da Gendarmaria Nacional, da Polícia Federal Argentina, da polícia provincial e de outras forças de segurança. Esta implantação deverá concentrar-se especialmente nas áreas de interface urbano-rural, nos parques nacionais e nos setores historicamente vulneráveis ??à ocorrência de incêndios, como a Patagônia.2. Uso intensivo de tecnologia para dissuasão e detecção. O país deve normalizar o uso sistemático de drones, monitorização por satélite, câmaras térmicas e sistemas inteligentes de análise de imagens, não só para detectar surtos incipientes, mas para identificar comportamentos suspeitos. A prevenção moderna exige presença territorial visível e capacidade tecnológica permanente, integrando ferramentas como as disponibilizadas pelo Sistema Nacional de Gestão de Incêndios e pelos satélites de monitorização ambiental.3. Planeamento territorial responsável. A expansão urbana não regulamentada em áreas de alto risco aumentou dramaticamente a exposição da população. Reconstruir repetidamente nos mesmos locais, sem planeamento preventivo, é social, humana e economicamente insustentável. É urgente implementar planos de ordenamento que regulem o uso do solo em áreas propensas a incêndios, promovendo a restauração ecológica e o zoneamento de risco.4. A educação e a sensibilização dos cidadãos devem ser consideradas um eixo central das políticas de prevenção de incêndios. A formação contínua, a divulgação de boas práticas e a educação ambiental precoce permitem-nos antecipar e mitigar comportamentos de risco, reduzindo a ocorrência de incêndios de origem humana. Investir na educação preventiva não só reduz a pressão sobre os sistemas de resposta e combate a incêndios, mas também contribui para a proteção sustentável dos ecossistemas, das infraestruturas produtivas e das comunidades.5. Manejo sustentável de florestas nativas para prevenção. Embora o fogo faça parte dos ecossistemas, é essencial enfatizar a importância do manejo ativo e responsável das florestas nativas, incluindo práticas como redução da carga de combustível, restauração de áreas degradadas e planejamento com uso de barreiras naturais existentes para mitigar o risco de propagação do fogo e fortalecer a resiliência dos ecossistemas diante de eventos extremos.6. Processo criminal eficaz e sanções exemplares. Os Ministérios Públicos e os tribunais devem agir de forma mais rápida e eficaz na investigação de incêndios rurais. A identificação e condenação dos responsáveis ??– negligentes ou intencionais – são essenciais para gerar um verdadeiro efeito dissuasor. Sem sanções oportunas e proporcionais aos danos causados, a impunidade continuará a alimentar a repetição destas tragédias, como evidenciado nos casos em que a origem humana foi confirmada mas não foi devidamente processada. “A nossa conclusão é categórica: enquanto o país continuar a concentrar os seus esforços quase exclusivamente no combate aos incêndios já declarados, continuará a lamentar as perdas humanas, a destruição de comunidades e a degradação ambiental”, destacam no documento. “Os incêndios não são desastres naturais inevitáveis: a grande maioria são eventos evitáveis, agravados por fatores antrópicos e climáticos, que exigem uma resposta abrangente”, acrescentam. A CPIA, através da sua Comissão Técnica Florestal, reitera a sua total disponibilidade para colaborar técnica e institucionalmente na concepção de uma estratégia moderna, abrangente e eficaz, focada na prevenção, dissuasão e protecção da vida humana.











